A TV saiu do ar bem na hora em que o jogador ia marcar um belo gol, acho. Esporte bacana handebol, principalmente o masculino. Tem toda aquela coisa de agressividade, cotoveleladas nas costelas, dedos nos olhos, quando o juiz não está de olho, claro. Abri uma lata de ervilhas, isso me deprimiu. Todas agrupadas naquele pequeno espaço sem luz por não sei quanto tempo. Olhei a data de fabricação e validade. Estavam ali há cinco semanas. Iam permanecer, se eu não tivesse aberto a lata, por mais doze. Isso se informaram a data correta. Nunca confiei nessas datas impressas nas embalagens. Houve um tempo em que caras remarcavam os preços, constantemente. Era a recessão. O que os impediria de remarcar as datas no fundo das latas e das outras embalagens? A lata trazia uma receita de como melhorar o sabor das ervilhas, de como misturá-las a outros ingredientes. Eu não tinha nenhum dos outros ingredientes, a não ser pó de café, e isso não estava na receita. Pra mim, elas são saborosas assim mesmo, puras. Existem poucas coisas puras no mundo que você pode comer sem nenhum acompanhamento. Têm algumas que ficam muito desagradáveis, como o arroz, por exemplo. Os chineses só comem isso, mas misturam com grilos e baratas, presumo. Os chineses são o tipo perfeito daquela praga bíblica, aquela parte sobre a peste de gafanhotos.
Em algum momento da minha vida eu quis ser uma ervilha, bem verdinha e roliça. Despreocupada, rolando pra lá e pra cá enquanto alguém prepara a comida. Eu ia ser aquela ervilha que sempre cai do prato em direção ao chão. Aí começariam minhas aventuras de ervilha. Alguém provavelmente me varreria para o lixo, tentaria acabar comigo, mas num descuido estaria eu rolando pra fora da boca do inferno, indo em direção ao ralo da cozinha. Uma vez nos canos, estaria livre. Provavelmente iria dar num desses rios que cortam as cidades de norte a sul, leste a oeste. Eu iria para o oeste, para novas aventuras. Seria necessário aperfeiçoar a minha capacidade de flutuação, mas nada que não se pegue o jeito uma hora ou outra. Então eu pararia em algum ponto onde a correnteza enfraquece e ficaria por ali esperando as chuvas e com elas as cheias que me levariam pra parte alta da margem do rio. Uma vez lá, poderia fixar-me a terra e completar a minha missão de ervilha. Fazer brotar um belo pé carregado de suculentas ervilhas, que seriam desejadas por quem as visse. Esse seria um possível fim pra mim, mas gosto de pensar que um pássaro poderia se interessar pela minha sempre verde cor e me levar no bico, até o seu ninho. Eu, pela primeira vez tendo a noção do como é imenso e também inabitável é o mundo visto aqui do alto. Uma vez no ninho, serviria de refeição pra um de seus três filhotes barulhentos e esfomeados. Então eu poderia voar, teria asas, faria parte daquele pássaro, não de homens e mulheres mesquinhos e rastejantes, que não tem a mínima idéia de como é ser uma ervilha dentro de uma pequena lata de conserva.
Em algum momento da minha vida eu quis ser uma ervilha, bem verdinha e roliça. Despreocupada, rolando pra lá e pra cá enquanto alguém prepara a comida. Eu ia ser aquela ervilha que sempre cai do prato em direção ao chão. Aí começariam minhas aventuras de ervilha. Alguém provavelmente me varreria para o lixo, tentaria acabar comigo, mas num descuido estaria eu rolando pra fora da boca do inferno, indo em direção ao ralo da cozinha. Uma vez nos canos, estaria livre. Provavelmente iria dar num desses rios que cortam as cidades de norte a sul, leste a oeste. Eu iria para o oeste, para novas aventuras. Seria necessário aperfeiçoar a minha capacidade de flutuação, mas nada que não se pegue o jeito uma hora ou outra. Então eu pararia em algum ponto onde a correnteza enfraquece e ficaria por ali esperando as chuvas e com elas as cheias que me levariam pra parte alta da margem do rio. Uma vez lá, poderia fixar-me a terra e completar a minha missão de ervilha. Fazer brotar um belo pé carregado de suculentas ervilhas, que seriam desejadas por quem as visse. Esse seria um possível fim pra mim, mas gosto de pensar que um pássaro poderia se interessar pela minha sempre verde cor e me levar no bico, até o seu ninho. Eu, pela primeira vez tendo a noção do como é imenso e também inabitável é o mundo visto aqui do alto. Uma vez no ninho, serviria de refeição pra um de seus três filhotes barulhentos e esfomeados. Então eu poderia voar, teria asas, faria parte daquele pássaro, não de homens e mulheres mesquinhos e rastejantes, que não tem a mínima idéia de como é ser uma ervilha dentro de uma pequena lata de conserva.
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